Do mundo oriental vem o conceito de espaço-tempo "pessoal", uma terra diferente para cada um, no qual o terapeuta canaliza por meio da acupuntura, ervas ou demais alternativas as poderosas energias universais. O terapeuta atua como uma ponte, como uma agulha entre o Céu e a Terra. Uma ponte para si e para os outros.
Como María Fux nos lembra: "Se existem palavras, ideias, pontos de conexão entre as formas sensíveis eles estão dentro das pessoas. O importante é encontrar tal ponte."
A ela cabe o mérito de ter criado uma metodologia fundamental, reconhecida e difundida no mundo inteiro. De 2002 a 2005, trouxe também a São Paulo sua arte de cura com amor, dedicação e competência e com a intenção de divulgar um método cujo objetivo é a integração: "Não existe um diferente. Todos nós somos diferentes". Somos parte de um todo orgânico, em que as diversidades são vozes de uma orquestra que encontra sentido só quando integrada em um conjunto.
Quando me propuseram continuar um caminho tão luminoso e fértil, a minha preocupação, como responsável pela formação autorizada pela própria María Fux, foi cultivar o caminho utilizando um fertilizante saudável que já se encontrava nesta terra.
No meu percurso metodológico, definido como dança terapêutica, ou seja, "Dançamovimentoterapia entre o Oriente e Ocidente", criado nos últimos 15 anos, saliento um elemento essencial da prática da dançoterapia: a escuta. A arte de escutar, entendida como qualidade do coração.
A medicina tradicional chinesa reitera que só se o coração estiver "vazio" pode acolher inúmeros seres. Um terapeuta que saiba polir o próprio espaço interior pode, com a experiência, aprender a esvaziar o coração, preparando-se para dar acolhida sem prejulgamento.
O pulsar do coração, entendido como órgão central da vida psíquica e física, também é uma experiência criativa e alegre para as pessoas que, com a Dança, exprimem e encontram a sua energia vital. Dançar ao ritmo do coração significa conectar-se a uma energia forte e apaixonante. A um ritmo presente em cada coisa, em cada instante do cotidiano.
"Mostrem-me o ritmo!" pedi num dos primeiros encontros, e eis que a delicadeza e harmonia tipicamente brasileiras penetraram no meu corpo-coração, vindo de tão longe.
Escutar e canalizar de maneira diferente e modificável, porque a mudança, segundo os antigos textos chineses, é a essência da própria vida.
"Só a mudança permanece".
Escutando, é possível para o dançoterapeuta praticar a arte de cultivar as flores.
"Proceder com calma e beleza é uma condição indispensável para cultivar as flores"[1]
Na pedagogia de Sarabanda, aplicada há muitos anos nas escolas da Itália e que agora se difunde no Brasil, reencontramos o espírito descrito por Gusty Herrigel em O zen e a arte de cultivar as flores: "A uma flor é preciso pedir só aquilo que está de acordo com a sua natureza".
Escutando, canalizando, buscando envolver criativamente cada gesto como uma única respiração, valorizando-o enquanto característica expressiva de cada indivíduo, continuo neste caminho desde março de 2006.
A cada dois meses, retorno a São Paulo onde me acolhem alunos da formação e aqueles que participam dos workshops de dança terapêutica, abertos a todos. Todos cada vez mais numerosos e desejando aprofundar a sua busca de dança e de vida.
O objetivo é criar dançoterapeutas brasileiros cuja formação esteja de acordo com os parâmetros internacionais, nutridos pelo forte húmus do céu/terra rico e criativo da alma brasileira.[2]
Eis o que diz uma aluna brasileira:
A dançoterapia é isso também: plantar e colher intensidade e fluidez, a polaridade e a dança dos opostos, seja quando eu danço da terra para o céu e do céu para a terra ou quando danço o masculino e o feminino, que são diferentes, mas se fundem; é a dança presente exatamente nesta troca, no eterno movimento da vida, pois a vida não é estática nem rígida.
Uma das características do meu método é a integração entre Oriente e Ocidente. A prática do zen, da ioga e do shiatsu são estímulos antigos e saudáveis para a dançoterapia, que não é só terapia ou arte, mas prática de vida.
Integração leste-oeste, mas também norte-sul, em um mundo de contínua mutação.
"Imaginemos todas as formas possíveis, das densas às mais sutis, todos os seres e criaturas reunidos em uma explosão de vida que ultrapassa todas as dimensões, submetidas a ciclos vitais inexoráveis."[3]
O sentimento cósmico profundo do céu/terra da medicina tradicional chinesa, no qual o homem é considerado parte da tríade céu/terra/homem, adere imediatamente a uma espiritualidade característica de um país como o Brasil, onde é natural sentir dentro do corpo-coração a qualidade do movimento própria desta polaridade essencial. Ninguém está sozinho entre o céu/terra: eu danço o canto dos meus gestos concatenada ao dos meus alunos brasileiros.
Gestos e corpos fazem crescer árvores, ramos. Lágrimas de emoção, de dor e de comoção nutrem o espaço vacilante da Dança, sem discriminação, entre sentimentos bons ou maus ou entre pessoas; cada coisa muda, cada coisa encontra espaço!
Até mesmo as pessoas com graves problemas físicos ou psíquicos podem dançar suas vidas, já não é preciso técnica nem mesmo um corpo bonito e jovem. Pessoas surdas ou cegas não precisam ouvir nem ver para dançar suas danças. Não se vê, a não ser com o coração. Como diz Saint-Exupéry: "O essencial é invisível aos olhos".
O Brasil, país dançante por excelência, está participando por meio da DMT[4] de uma nova prática que mora na arcaica origem de cada um de nós.
Um agradecimento particular a todos aqueles que no Brasil têm contribuído para nutrir e fazer crescer a dança terapêutica no ritmo do coração brasileiro.
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA
INTRODUÇÃO
1. Por que uma dança terapêutica? Para quem?
A visão meditativa do movimento
2. Anotações e reflexões sobre uma viagem Oriente-Ocidente
3. Dançoterapia hoje.
Os precursores
4. A integração psicossomática da Dança. De Giovanni Ansaldi
Escutar a Música
Os hemisférios cerebrais
5. Da Dança à dançoterapia
Os elementos
O chörten tibetano
O movimento
A continuidade
A respiração
A relação com o espelho
A relação com a Música
6. O Encontro com o dançoterapeuta
Algumas experiências
7. A prática da dança terapêutica
O corpo: a nossa casa, o nosso chörten
O contato corpóreo
Respiração e Meditação
O peso do corpo
O contato com o chão
A coluna vertebral
Dançar em círculo. Dançar no espaço
Vamos fazer um sonho?
Dançando com as cores. Os chacras
8. Conclusões
O ritmo interior, uma dança para todos
9. Narrar ao ritmo do coração
A arte terapêutica da Dança
O tao da Dança
Para um nascimento sem violência?
A fábula de Albolina
BIBLIOGRAFIA
[1] Herrigel, Gustie. Zen in the Art of Flower Arrangement, translated from the German by R. F. C. Hull. Nova York: Arkana, 1987.
[2] Para mais detalhes e informações sobre a formação de dançoterapeutas no Brasil: www.dancaterapia-dmt.com.br.
[3] Saraceni, R. Código de Umbanda. 3ª ed. São Paulo: Madras, 2008.
[4] N.T.: DançaMovimentoTerapia.
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